Queen & Bowie: Criar um êxito sob pressão

2 Apr 2019

Hoje o nosso colaborador John Aguiar vem nos falar das peripécias de uma das maiores e mais bem sucedidas colaborações de sempre...

 

Novamente, mergulho no fascinante Universo Queen. Tal como na semana passada, a crónica de hoje versa sobre alguns factos de outro dos capítulos altos da história da banda. Assim, para as próximas linhas, fui ler mais sobre a construção do êxito Under Pressure. Mais uma vez, a ideia não é tanto “reinventar a roda”, pois se calhar a história deste hit não é segredo, mas se calhar irei tentar aprofundar o que sabemos já sobre o assunto, com opiniões pessoais sobre o que foi por mim recolhido. 


Numa rara colaboração entre os Queen e alguém fora, a “escolha” por David Bowie foi, no mínimo, inspirada. Músico consumado, vanguardista e profissional da cabeça aos pés, ter Aladin Sane com John, Roger, Brian e Freddie no mesmo estúdio tinha de dar certo. Mas também faísca. Mesmo não tendo estando lá, mas conhecendo as personalidades “profissionais” dos 5 e o modo apaixonado como viveram as carreiras respectivas, os momentos vividos devem ter sido inesquecíveis. Quer por parte dos protagonistas, quer por quem assistiu de perto a tudo.

Esta história começou no Verão do já longínquo ano de 1981. Os Queen eram “clientes” regulares dos Mountain Studios, em Montreaux, e Bowie encontrava-se na sua casa de Vevey, localidade próxima. Os 5 não eram completos estranhos e o encontro, pela proximidade geográfica, seria, calculo, inevitável. Mesmo que para breves sessões de jamming, tão normais nestes meios. Mas em relação ao modo como aconteceu a reunião as versões são divergentes. Peter Hince, famoso roadie dos Queen, afirma que Roger Taylor, fã de Bowie, convidou este para dar um saltinho ao estúdio para ver o que se passava. Já este último diz que a visita sucedeu por insistência de David Richards, engenheiro de som do Mountain. Após o encontro inicial ficou logo assente que uma colaboração seria interessante. Faltava ainda estabelecer o modo da mesma. 


A ligação entre tão geniais músicos foi rápida e começar desde logo a tocar e fazer covers do próprio material, a ver o que dava. Hince recorda, mais uma vez, que foi “um daqueles momentos rock n’ roll”. Bowie apelidou a coisa de espontânea e… peculiar. Já Taylor afirmou que estavam bêbedos e começaram simplesmente a tocar, entre músicas próprias e também material dos Cream. Ao fim de algumas músicas, foi Bowie, segundo o “nosso” baterista, que sugeriu experimentar algo original. Brian May diz que, à medida que iam tocando, coisas novas foram surgindo e sugeriu-se que se experimentasse gravar o que ia acontecendo. O modo como surgiu o famoso riff do baixo está ainda envolto num certo mistério por causa de versões algo contraditórias. Reza a lenda que tudo começou em Deacon, que começou a dedilhar a linha do baixo e todos gostaram e decidiram construir a música à volta da melodia. No entanto, pelo meio meteu-se o jantar e muito vinho. Quando regressaram, John havia esquecido o riff, que reapareceu mais tarde por acaso na cabeça do baixista. Já Deacon afirma que Freddie e David construíram a linha melódica. Corre ainda uma outra versão, talvez complementando a 1ª. Quando Deacon tentou repetir o riff, não se recordou do mesmo e foi Bowie que lhe guiou os dedos para a reconstruir. Este último afirma que a música foi escrita durante a noite e que Freddie (e o resto da banda) havia construído a base e que todos contribuíram com os restantes acordes para tornar tudo coeso. Isto é, não existe uma história única e factual sobre como tudo começou, mas parece um efectivo esforço colectivo, onde todos deram grandes pinceladas para o quadro final. E esse quadro, inicialmente chamava-se People On Streets. Foi de Bowie a ideia de mudar para Under Pressure. 

Quando se partiu para a mistura final da música, a tensão subiu. Bowie assumia a guia vocal, com Freddie a discordar com isso. Aliás, ambos discordavam do modo com a música deveria ser “mixada”. E as faíscas chispavam… Quando se chegou a um compromisso, após… muito vinho, Freddie queria fazer as vozes no dia seguir, mas Bowie queria continuar. Novamente, muita tensão no ar. Este último sugeriu que cada um fosse para a cabine cantar do modo como entendesse e depois via-se como juntar tudo. O processo tornou-se numa maratona, alimentada, ao que parece, também a droga. Bowie recordou que o que se ouve cantado por cada são versos escritos por cada um deles, achando incrível como tudo foi feito numa só noite. 


A mistura final da música foi feita em Nova Iorque. No entanto, as tensões entre Mercury e Bowie continuavam, nomeadamente e novamente com a mistura, com o segundo a assumir as rédeas da produção, para frustração de Reinhold Mack perante as constantes mudanças quer eram efectuadas. Todo este processo ocorreu durante Julho de 81 e foi lançado como single em Outubro, chegando a nº 1 no Reino Unido. Ainda assim, Bowie não estava completamente satisfeito com a versão final, lançada, entretanto. Tudo por causa dos problemas do estúdio em Nova Iorque (a mesa de mistura simplesmente quebrou). Mas quando os Queen lançaram Hot Space (1982), incluindo Under Pressure, Bowie mudou de ideias. À época, este queria mudar de editora e o sucesso do tema ajudou-o a esse feito. O disco havia sido lançado pela EMI e, em 83, Bowie assinou também por aquela marca. 


Under Pressure é um dos mais bem sucedidos e mais conhecidos temas dos Queen, hit a nível mundial. E passemos por cima de “Ice, Ice Baby”, ok?! Como sabemos, não existe uma versão ao vivo com Mercury e Bowie, apesar da boa oportunidade no Live Aid. Bowie, que nunca mais havia revisitado a música, cantou Under Pressure no tributo a Mercury em 92, num dos momentos mais emocionais da noite, ao ajoelhar-se e recitar uma pequena oração. 

Apesar de efémera, a colaboração foi marcante para todos. E se “escavarmos” o YouTube encontramos mais qualquer coisa, versões demo de Under Pressure e as vozes de Bowie em Cool Cat também de Hot Space. E segundo Peter Hince, existe ainda mais qualquer coisa nos cofres… Iremos ver isso algum dia? É aguardar…

 

 

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