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Hoje o mítico Queen II faz cinquenta anos


Queen II

Pelas palavras do nosso querido amigo e colaborador Leonel Silva, assim celebramos o mítico Queen II, álbum que faz hoje cinquenta anos.


Falar sobre o álbum da minha vida, aquele álbum que levaria para uma ilha deserta se só pudesse escolher um, falar sobre uma fonte inesgotável de alegria, sobre algo que me dá infindável prazer de ouvir, não é, nem pode ser, simples. Contudo nas próximas linhas vou tentar explicar-vos como sinto e entendo o segundo álbum dos Queen. Não vos quero convencer de que o “Queen II” é de facto, o melhor álbum de sempre mas quero explicar-vos porque é que, para mim, ele é o melhor de sempre.


Queen

Em 1973 os Queen andavam em tournée por terras de sua majestade, promovendo o seu primeiro álbum e já então se vislumbrava a genialidade dos nossos quatro magníficos ao vivo, contudo havia entre eles uma relativa frustração pelo sucesso moderado do primeiro álbum. Tendo sido gravado nas horas livres do estúdio da sua editora Trident, não tinha sido possível no álbum de estreia, explorar todas as possibilidades tecnológicas e criativas que fervilhavam nas suas cabeças. Quando em agosto de 1973 entraram novamente em estúdio para a gravação do seu segundo álbum tudo seria diferente. Desta vez, com a disponibilidade total do estúdio de gravação, os Queen, passariam 7 meses a explorar todas as ideias que fervilhavam nas suas jovens mentes e a aplicar literalmente todas técnicas conhecidas e outras por descobrir que pudessem enriquecer os seus temas e fazer do segundo álbum algo verdadeiramente excecional.


Os Queen conseguiriam enfim, colocar em disco todas as marcas distintivas que nos fazem amar esta banda, os coros de vozes em infindáveis camadas e sobreposições, as geniais vocalizações, as brilhantes orquestrações feitas por uma guitarra apenas…e sem uso de sintetizador; os incríveis solos; a força rítmica inigualável da bateria, o equilíbrio sóbrio da guitarra baixo. Tudo isto aliado a composições e performances intemporais dos quatro magníficos, resultando num “Queen II” onde os Queen são eles próprios em todo o seu esplendor e potencial. Na sua conceção os Queen quiseram transportar para este álbum o conceito, já explorado nos seus concertos ao vivo à época, da dicotomia entre o branco e negro, o bem e o mal, o puro e o pecado. E apesar de não ser considerado um álbum conceptual, ele tem um fio condutor baseado neste conceito, desde logo com a utilização do lado “White” e o lado “Black” e também na pureza e candura lírica do lado branco em contraste com a fantasia e negritude do lado negro do Queen II. Também no próprio grafismo do álbum essa divisão entre o branco e negro seria notória com a utilização de duas imagens magnificas capturadas pelas lentes de Mick Rock. A capa do álbum inspirada na famosa imagem de Marlene Dietrich, com os quatro génios vestidos de negro em fundo negro, dispostos em losango naquela que é provavelmente a imagem mais icónica do quarteto e que seria usada mais tarde no vídeo de “Bohemian Rhapsody” e no interior do disco, a não menos genial imagem com os Queen vestidos de branco em fundo branco.


Queen

Queen II” inicia com o tema “Procession”, um tema instrumental que nos transporta para um cortejo fúnebre, onde as guitarras choram a cada passo sincopado do bombo levando-nos a um profundo sentimento de tristeza e angústia.


E é nesse estado de espírito que levamos o primeiro choque de realidade com a força e poder do Rock pesado de “Father To Son”, uma ode ao amor de pai pelo seu filho. Uma espécie de tributo de Brian a seu pai que funciona quase como um pedido de desculpa por este ter seguido o sonho de ser músico e não aquele que o seu pai lhe ambicionava, mas também uma forma de reconhecer o legado que o pai lhe passou.


Depois de pôr o nosso mundo a rodar com “Father To Son”, Brian leva-nos para o seu lado mais frágil. “White Queen” expõe a ilusão e o encantamento de quem se apaixona por alguém que lhe parece inalcançável. Viajamos, no decurso do tema, no olhar embevecido do apaixonado sobre o seu amor não correspondido e convencemo-nos, através da mestria musical dos Queen, que estamos de facto perante uma divindade, uma musa, alguém que está acima de tudo e de todos. E assim termina como começou…


Em “Someday one Day” ouvimos pela primeira vez a doce voz de Brian May em discos dos Queen. Com uma vibe muito Beatlesca, a sua voz e a sua guitarra acústica oferecem-nos um tema profundamente esperançoso onde se augura que as nuvens dispersem…um dia destes. 


O lado “White” termina com a voz inconfundível, rouca e poderosa de Roger Taylor chamando a atenção que o amor de mãe é insubstituível, incomparável e incondicional, mas também que as mães têm de dar espaço para que os seus filhos voem e caiam. Um tema muito forte que dá uma piscadela de olhos aos Led Zeppelin e que nos deixa ansiosos por continuar a desfrutar o restante álbum.


Virado o disco para o lado “black” e entramos imediatamente numa tempestade onde de repente somos puxados através de um wormhole para um universo paralelo, para um mundo de fantasia onde ogres lutam entre si incessantemente. O primeiro tema do nosso trovador Freddie Mercury, “Ogre Battle” leva-nos a uma batalha furiosa de contornos épicos onde somos levados entre golpes de espada e gritos de desesperação a lutar com unhas e dentes pela vitória. Este é um dos temas mais pesados da discografia dos Queen sendo várias vezes referenciada como influência para muitas bandas de Rock mais pesado e Metal.


O segundo tema de Mercury é “Fairy Feller’s Master Stroke” e este é um exemplo claro da loucura que foi construir alguns dos temas deste álbum, desde a inclusão do cravo e de dezenas de camadas de vozes e guitarras a interagir entre si, este tema é dos mais complexos a todos os níveis dos Queen em toda a sua discografia. O próprio Roger Taylor afirmou ser “a maior experiência em stereo”. Baseado no quadro de Richard Dadd com o mesmo nome, a música recria com mestria o sentimento de claustrofobia transmitido pelo quadro, retratando quase todos os intervenientes nele retratados.


Quando a loucura acalma e a fechar o medley de três temas que abrem o lado “Black”, Freddie traz-nos a desesperança de “Nevermore”. A doce e triste melodia do piano acompanha o desespero na voz de Freddie que canta sobre a perda de um amor que nunca mais voltará. E apesar de ser de duração curta este é um dos temas mais memoráveis e incríveis deste álbum e provavelmente uma das baladas mais bonitas de sempre.


Poder-se-ia dizer que nos quase 7 minutos de “The March of the Black Queen” se encerra tudo aquilo que os Queen são e representam e pelo qual os amamos. Dividida em vários momentos e tempos distintos como um verdadeiro épico de rock progressivo que é, o nono tema de “Queen II” faz-nos voar por passagens doces e melodiosas e aterrar em trechos de peso, viajando por solos magníficos intercalados de coros titânicos e até por marchas militares, tudo conseguido numa perfeição lírica e musical inigualável. O primor da composição musical e a mestria no uso de toda a tecnologia disponível num estúdio musical estão perfeitamente representadas neste tema. A título pessoal digo-vos que se tivesse de escolher um qualquer tema para ouvir ininterruptamente para o resto da minha vida, seria este. Ah, e na verdade foi na gravação deste tema que as fitas ficaram transparentes num mito muitas vezes associado a “Bo Rhap”.


O cariz experimental de Queen II continua em “Funny How Love is”, talvez o tema mais direto do álbum, e é um tema distintivo por nele se ter aplicado a técnica de produção “Wall of Sound”, revolucionária à altura e realizada por Robin Geoffrey Cable que já o tinha experimentado em “I Can Hear Music” com um tal de Larry Lurex (também conhecido como Freddie Mercury) e também por ser cantada por Freddie num tom tão alto que faria que o tema nunca tivesse sido tocado ao vivo.


O primeiro grande sucesso da história dos Queen, que chegaria a número 10 no Reino Unido, seria o tema de encerramento de “Queen II”. O seu protótipo, com o mesmo nome, do primeiro álbum não fazia adivinhar a genialidade de “Seven Seas of Rhye” no segundo. Com o intuito claro de fazer melhor que “Keep Yourself Alive” e tentando ultrapassar as principais críticas que o tema do primeiro álbum tinha recebido, Freddie (com uma ajuda de Brian), traz-nos um tema curto, direto e composto com o intuito específico de ser single e de atrair todas as atenções possíveis. “Seven Seas of Rhye” consegui-o e fecha com chave de ouro um álbum impressionante e que deveria de ser obrigatório conhecer.


Queen

A mestria com que cada tema de luz e escuridão são interpretados, a quebra das fronteiras da música e dos próprios limites dos músicos aliado à perfeição na combinação de todos esses elementos, faz deste álbum, na minha opinião, uma obra-prima intemporal da música que faz agora 50 anos, mas podia ser de sempre e é com certeza para sempre.


Muitos Parabéns, “Queen II” e obrigado por nos fazeres sonhar!


Queen II:

1. Procession (Brian May)

2. Father To Son (Brian May)

3. White Queen (As It Began) (Brian May)

4. Some Day One Day (Brian May)

5. The Loser In The End (Roger Taylor)

6. Ogre Battle (Freddie Mercury)

7. The Fairy Feller's Master-Stroke (Freddie Mercury)

8. Nevermore (Freddie Mercury)

9. The March Of The Black Queen (Freddie Mercury)

10. Funny How Love Is (Freddie Mercury)

11. Seven Seas Of Rhye (Freddie Mercury)

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