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THE WORKS

“Nós já tínhamos feito alguns vídeos épicos no passado e queríamos que as pessoas soubessem que não nos levamos muito a sério, que conseguimos rir-nos de nós mesmos. Acho que conseguimos provar isso”

Roger Taylor on I Want To Break Free

 

Quando o décimo primeiro álbum dos Queen, The Works, foi lançado no Reino Unido, a 27 de Fevereiro de 1984, a maioria dos fãs e críticos saudou-o como um regresso bem-vindo às raízes rock da banda. O álbum anterior, Hot Space, de 1982, baseado no estilo funk/dance, e singles como Body Language e Back Chat tinham sido vistos, por muitos, como uma mudança de rumo exagerada, mas agora o tradicional «som dos Queen» estava de volta. Para os fãs de longa data, em particular, este foi um regresso muito desejado e bem-recebido ao antigo som dos Queen!

Apesar de o novo álbum ter sido feito um uso substancial e óbvio de teclados electrónicos pela primeira vez, com a indicação «sem sintetizadores» há muito abandonada, e de exibir algumas faixas o talentoso teclado de Fred Mandel (que acompanhara os Queen na digressão de 1982 pelos Estados Unidos e Japão), a impressa musical britânica foi extraordinariamente generosa na avaliação do disco. O jornal semanal Record Mirror chegou mesmo a descrevê-lo como «Mais uma joia da coroa».

The Works foi produzido novamente pela dupla bem-sucedida Queen/Mack. Os três álbuns anteriores (The Game, Flash Gordon e Hot Sapce) tinham criado uma relação de trabalho sólida e produtiva, e este álbum seguiria o mesmo padrão.

A capa do álbum foi concebida pelos Queen e ostenta uma fotografia da banda da autoria do lendário fotógrafo George Hurrel, que já trabalhara com a maioria das celebridades de Hollywood. Retratara figuras lendárias como Marilyn Monroe, Joan Crawford, Clark Gable, Greta Garbo, Bette Davis, Humphrey Bogart e Errol Flynn, criando algumas das imagens mais icónicas da história do cinema. A sessão realizada com os Queen produziu também algumas das mais marcares fotografias de sempre da banda.

The Works entrou para o 2º lugar da tabela do Reino Unido após o lançamento do primeiro single, Radio Ga Ga, um mês antes. O álbum liderou as tabelas em Portugal e na Holanda e alcançou o top tem em todo o mundo. Ultrapassou as vendas de Platina no Reino Unido e deu aos Queen um novo Disco de Ouro nos Estados Unidos. No ano anterior, a banda tinha deixado a sua editora americana, a Elektra Records, e The Works foi o primeiro álbum do grupo editado pela Capital Records. No Japão, os Queen também mudaram de etiqueta, lançando este álbum com a EMI/Toshiba.

As sessões de gravação iniciaram-se nos Estados Unidos, em Agosto de 1983, nos estúdios Record Plant, em Los Angeles – era a primeira vez que os Queen começavam a produzir um álbum fora da Europa -, e terminaram no ambiente familiar dos estudos Musicland, na Alemanha, em Janeiro do ano seguinte. Durante este período, a banda foi convidada para trabalhar na música do novo filme do realizador Tony Richardson, The Hotel New Hampshire, baseado no romance de John Irving. Apesar de terem inicialmente concordado em produzir algumas das músicas (depois de John e Freddie se terem encontrado com Tony Richardson em Montreal), e possivelmente gravar um álbum com a banda sonora completa, à medida que o trabalha avançava perceberam que a música não se enquadrava ao filme e acabaram por se retirar do projecto para se concentrarem na finalização do seu próprio álbum, entretanto já iniciado.

O período de 1983/84 foi frenético em termos de gravação, com os quatro membros da banda a contribuir com múltiplas ideias. Embora o álbum apresente apenas nove faixas, a banda começou a trabalhar num número significativo de outras canções, que nunca foram terminadas e permanecem ainda hoje nos arquivos – à excepção de Let Me In Your Heart Again, surgida na colectânea Queen Forever, lançada em Novembro de 2014.

O grupo estava muito satisfeito com o resultado final e animado pelo retorno às raízes tradicionais do rock e o ressurgimento de tantas marcas distintivas dos Queen. Entregou-se de corpo e alma em todas as sessões de gravação, e o título resultou desse esforço: em todos os sentidos, o álbum foi para a banda A OBRA (THE WORKS)!.

Uma das faixas escritas por Freddie para o filme Hampshire, a canção de alguma forma inóspita Keep Passing Open Windows, acabou por integrar o álbum final. O título foi retirado de uma frase do livro e do filme e é uma expressão de alento para os maus momentos. O álbum oferece mais duas composições de Freddie: Man On The Prowl, de estilo rockabilly (com um final de piano «estridente», conforme assinalado nas notas do disco e It’s a Hard Life. Esta última viria a ser apontada como uma das composições de Freddie preferidas por Brian e Roger, e os fãs também a costumam mencionar como uma das melhores da banda. A parte da introdução desta faixa, ao estilo grandioso dos Queen, baseia-se a ária Vesti La Giubba, da ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, e é a prova, para quem o desconhecesse, de que o amor de Freddie pela música era extremamente variado e se estendia muito além do rock e do pop. It’s A Hard Life foi também uma das composições preferidas de Freddie. Quando o pressionavam para escolher uma canção, ele citava-a sempre, a par de Somebody To Love, como uma das que mais gostava, e não, curiosamente, Bohemian Rhapsody, como se poderia esperar.

Brian contribuiu para The Works com duas faixas de rock pesado lideradas pela guitarra, intituladas Tear It Up e Hammer To Fall, muito ao estilo consagrado da banda. Ambas se enquadravam naturalmente na vaga musical da época e tornar-se-iam favoritas nos concertos. Enquanto Tear It Up é uma relativamente directa na abordagem, Hammer To Fall é muito mais complexa, como tens sombrios. A letra remete para a guerra, destruição e nuvens em forma de cogumelo, Brian revelaria mais tarde «sobre a vida e a morte, e como a morte faz parte da vida… o martelo a cair é apenas um sinal da Ceifeira a fazer o seu trabalho!».

Ainda nas sessões de gravação do álbum, a banda revisitou uma ideia quase esquecida chamada I Go Crazy, originalmente trabalhada durante a produção de Hot Space, em 1981. A faixa foi ignorada para aquele álbum, e curiosamente também para este projecto, apesar do muito espaço para a incluir tendo surgido apenas como lado B no single Radio Ga Ga. «I don’t wanna go and see Queeeen» faz parte das letras irónicas de Brian, com Freddie a atingir tons altíssimos num magnífico desempenho vocal em algo muito diferente do que era habitual nos Queen. E, no entanto, apesar de tudo, muito poucos a conhecem.

Machines (or Back To Hummans) é uma das duas colaborações do álbum. Roger teve a ideia, Brian gostou e ajudou a terminá-la. A segunda colaboração resultou das gravações foi escrita por Freddie e Brian numa noite no estúdio, depois de verem o noticiário, Is This The World We Created…? É um dueto pungente, com Brian na guitarra acústica e Freddie na voz, uma canção suave com uma mensagem forte e sentida, que chama a atenção para a pobreza e a fome no mundo. Is This The World We Created…? Surgiu um ano antes da canção da Band Aid e um ano e meio antes do concerto Live Aid de 13 de Julho de 1985. Apropriadamente, foi interpretada pelos seus autores no Live Aid, mesmo antes do grande final, e exibida de forma regular nos concertos de 1984/85/86.

Radio Ga Ga foi o primeiro single do álbum The Works, lançado a 23 de Janeiro de 1984. Ajudado, em grande medida, por um videoclipe espectacular, alcançou o 2.º lugar no Reino Unido, 16.º nos EUA e o primeiro em dezanove outros países. Com I Go Crazy na labo B, canção não editada no álbum, foi o primeiro single dos Queen lançado no Reino Unido a incluir o número personalizado de catalogação da banda, QUEEN I.

Roger «Radio Ga Ga foi o número um em dezanove países e todo o álbum obteve um enorme sucesso. Mas nos Estados Unidos o êxito foi apenas moderado, não chegou a ser um grande álbum, e isso desiludiu-me muito.»

Sabe-se que a inspiração para a canção veio do filho de Roger, depois de ter ouvido na rádio algo que não gostara e de ter comentado que aquilo era «ka ka». Roger concordou. Há rumores de que a letra original era mais alegre do que aquela que acabou por ser editada, mas os pormenores continuam muito bem guardados. Freddie também trabalhou intensamente na música, acreditando que esta seria um enorme sucesso, o que, na verdade, viria a acontecer. Uma faixa épica requer um vídeo igualmente épico, e a banda estava ansiosa por trabalhar com o realizador David Mallet. Depois de Freddie gravar uma música para uma nova versão do clássico filme mudo de Fritz Lang, Metropolis, de 1926 – a comovente Love Kills –, a banda teve a ideia de utilizar excertos do filme como pano de fundo para o vídeo de Ga Ga, adicionando novas cenas gravadas da banda. Os direitos de utilização do filme foram obtidos do governo alemão e, com a ajuda de centenas de membros do Queen Fan Club como figurantes, nascia um dos videoclipes mais intemporais do grupo. A multidão de fãs vestidos com macacões brancos, alinhados em frente aos membros da banda em palco, executando de forma sincronizada a disciplinada, como um regimento, a famosa sequência de palmas, ajudou a fazer deste vídeo um dos mais famosos alguma vez gravados. Ainda hoje, este extraordinário espectáculo repete-se sempre onde quer que a canção seja tocada.

O segundo single retirado do álbum foi a canção I Want To Break Free, única contribuição de John Deacon para o disco. A 2 de Abril de 1984, foi lançado um remix, que alcançou o 3.º lugar nas tabelas do Reino Unido – em conjunto com o tema Machines, escrito pela dupla Taylor/May, sobre os humanos versus máquinas. A mensagem break freelibertar-se») foi adoptada em inúmeras zonas oprimidas do mundo e tornou-se um hino desafiador para muitos. Este lançamento fez com que os Queen alcançassem o seu mais longo reinado da década nas tabelas de singles de Inglaterra. Nos estados Unidos, a Capital Records lançou uma versão instrumental remix do lado B que se tornou uma raridade muito procurada.  

Mais uma vez, o realizador David Mallet foi contratado para outro videoclipe atípico, que muitos consideram acima de todos os limites, e desta vez o resultado final seria um choque. Muito já foi dito e escrito sobre o vídeo promocional de I Want To Break Free, no qual os membros da banda surgem em roupas de senhora, numa paródia alegre da série televisiva britânica «Coronation Sreet», e grande parte do que se escrever era verdade. Gravado nos Limehouse Studios, East London, em Março de 1984, tornou-se um verdadeiro clássico. Mais uma vez, o exército leal de fãs foi convocado para algumas cenas e, como sempre, trabalhou incansavelmente, sem uma queixa, até ao fim. A parte intermédia do vídeo foi a mais cara de qualquer filme dos Queen realizado até então, apresentando Freddie numa recreação do ballet de Debussy, L’apres-midi d’un faune, dançado anteriormente por Nijinsky. Para esta parte, e apenas para esta, Freddie cortou o bigode, que mantivera de forma deliberada nas cenas em que surgia vestido de mulher – e ensaiou longamente com a companhia Royal Ballet. No fim, e apesar de alguns argumentos que It’s a Hard Life está ao mesmo nível, o vídeo de Break Free (sugerido pela então namorada de Roger), continua a ser um dos mais excêntricos dos Queen e, certamente, um dos mais hilariantes.

Referindo-se a ele, Roger comenta: «No passado, já tínhamos feito alguns vídeos grandiosos, épicos, e queríamos que as pessoas soubessem que não nos levávamos muito a sério, que ainda nos conseguíamos rir de nós próprios. Acho que resultou.»

O terceiro single do álbum, It’s a Hard Life, acompanhado de Is This The World We Created, foi lançado a 16 de Julho e alcançou o 6.º lugar no Reino Unido. O vídeo algo inquietante que o acompanha está entre os mais falados dos Queen, mas não pelas melhores razões. Brian, Roger e John afirmaram mais tarde que este o vídeo menos apreciado de todos. Adornados da cabeça aos pés com maquilhagem, e roupas pesadas, desconfortáveis e completamente excessivas, os membros da banda surgem num rebuscado baile de máscaras. Brian aparece com uma guitarra em forma de caveira, John e Roger estão visivelmente felizes por evitarem a câmara tanto quanto possível e, se isto não fosse já ridículo o suficiente, o fato «Olhos» de Freddie é tão extravagante que faz com que ele pareça (nas palavras de Roger) «um camarão gigante». Popular entre os fãs, este vídeo sublimemente incomum foi de facto uma montra para as ideias excêntricas de Freddie.

 

O último single retirado do álbum foi uma edição de Hammer To Fall, acompanhada de Tear It Up, que alcançou o 13.º lugar em Setembro de 1984. O respectivo vídeo foi gravado na primeira noite da digressão europeia Works, em Agosto, e, com uma iluminação deslumbrante e pura energia, é um registo maravilhoso das apresentações da banda ao vivo naquela altura.

Thank God It’s Christmas, uma canção co-escrita por Roger e Brian, não incluída no álbum, pôs fim a um ano agitado para os Queen. Foi lançada a 26 de Novembro no Reino Unido e alcançou o 21.º lugar das tabelas. Nos Estados Unidos, só foi disponibilizada em formato vinil de 12”, o que pode ter contribuído para o decepcionante desempenho alcançado nos tops. Nem sequer houve vídeo de promoção do single, uma estranha omissão no catálogo dos Queen.

As últimas duas faixas do álbum que ainda não tinham sido lançada em single, Man On The Prowl e Keep Passing The Open Windows, foram editadas como canções adicionais com Thank God It’s Christmas; deste modo, o álbum The Works tornou-se o único cujas faixas foram integralmente lançadas como single principal ou lado B.

​Disc 1
1 - Radio Ga Ga  (Roger Taylor)
2 - Tear It Up  (Brian May)
3 - It's A Hard Life  (Freddie Mercury)
4 - Man On The Prowl  (Freddie Mercury)
5 - Machines (Or Back To Humans)  (Brian May/Roger Taylor)
6 - I Want To Break Free  (John Deacon)
7 - Keep Passing The Open Windows  (Freddie Mercury)
8 - Hammer To Fall  (Brian May)
9 - Is This The World We Created ...?  (Freddie Mercury/Brian May)

​Disc 2
1 - I Go Crazy (B-Side)  (Brian May)
2 - I Want To Break Free  (Single Remix)  (John Deacon)
3 - Hammer To Fall (Headbanger’s Mix)  (Brian May)
4 - Is This The World We Created…? (Live in Rio, January 1985)  (B.M/F.M)
5 - It's A Hard Life (Live in Rio, January 1985)  (Freddie Mercury)
6 - Thank God It’s Christmas (Non-Album Single)  (Roger Taylor/Brian May)

(The Works (2011 Remaster) (Deluxe Edition))

DIGRESSÃO

Além do álbum The Works e dos respectivos singles, 1984 foi um ano agitado para os Queen a vários níveis. Logo no início, a 3 de Fevereiro, a banda apresentou-se no festival da canção de San Remo, Itália, que se realiza anualmente. Foi a sua primeira actuação no país e o festival funcionou como uma versão alargada do «Top Of The Pops», com todos os artistas a actuar em playback. Os Queen foram a principal banda da noite e apresentaram Radio Ga Ga para 2000 fãs locais e uma audiência europeia de 30 milhões! 

A 12 de Maio, estivaram no festival de música pop Golden Rose, que se realiza anualmente durante quatro dias em Montreux, na Suíça. Mais uma vez, nenhuma das apresentações foi feita ao vivo e o grupo interpretou em playback as faixas Ga Ga, Tear It Up, Break Free e Hard Life. O momento foi gravado pela Televisão Suíça e pela BBC e depois transmitido para mais de quarenta países em todo o mundo.

A digressão Works de 1984 teve início a 24 de Agosto na Bélgica e terminou com nove noites seguidas no Superbowl de Sun City, África do Sul, a 20 de Outubro. A banda viu-se envolvida em muita controvérsia por causa dos espectáculos em Sun City, mas, como sempre, manteve a sua posição antipolítica. A digressão europeia passaria também pela Irlanda, Inglaterra (incluindo quatro noites na Wembley Arena), Alemanha, Itália, França, Holanda e Áustria. A maioria das canções do novo álbum seria apresentada em palco, à excepção de Man On The Prowl e Keep Passing The Open Windows. Foi estreado um novo equipamento de iluminação, maior, mais brilhante – e muito mais quente – do que qualquer um dos anteriores. E, pela primeira vez, foi usado um enorme cenário, inspirado no trabalho de máquinas, que mostrava, em fundo, uma imagem de vários arranha-céus e, de cada lado da bateria, roldanas gigantes em rotação.

De seguida os Queen apresentaram o álbum ao vivo em duas noites não consecutivas no festival Rock In Rio, no Brasil, em Janeiro de 1985. Antes de uma curta digressão pela Nova Zelândia, em Abril, e de algumas datas na Austrália e no Japão.

O espectáculo Works oferecia realmente o que era prometido no bilhete! Foram concertos memoráveis para todos os que tiveram a sorte de os ver. Continuaria a falar-se desses concertos e de tantos outros episódios associados e divertidos durante décadas. Mais de trinta anos depois, os fãs ainda se referem a eles com enorme carinho e, à semelhança de todos os concerto dos Queen, nunca serão esquecidos.

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